Lágrimas no lugar dos medos
by Fernanda Alcantara
Depois de uma longa espera finalmente o Tears For Fears voltou ao Brasil. Óbvio que eu não pude ir ao primeiro show deles aqui, tinha uns 15 anos a menos – no mínimo.
Eu realmente tava ansiosa pra cacete. O dia se arrastou. Eu iria sozinha.
Na última hora minha prima Lorena resolveu ir de bicho e tentar comprar na hora. Assim que chegamos, abordei um cara e, missão dada, é missão cumprida!
Após a facada inicial do ingresso e o perrengue pra estacionar no Via Parque, nos encaminhamos pra entrada e nem catraca tinha no Citibank Hall dessa vez. Acho que eles relaxaram quando viram que foi sold out.
Dei aquele confere no banheiro pra nao correr o risco de ficar apertada na hora do show, fila pra mijar, fila pra comprar, fila pra pegar e enfim beber.
Merch oficial também tinha, umas camisetinhas feias pra caralho; não me interessou nem o preço.
Adentrando a parada, já estava cheio. Meu lugar cativo – ao lado da mesa de som- já tava cheio de aleatórios e putaças, mas foda-se.
Tava rolando um mini show de um cara aleatório cantando bem e que me chamou a atenção. Ele tinha “sangue nozóio” e apesar de todo darkness e depressão musical, não me fez dispersar e atiçou minha curiosidade. O nome do cara é Michael Wainwright e ele faz backings pro Tears For Fears. Mas vamos por partes, porque até então eu não sabia.

A maquiagem não tava assim, mas isso foi o mais próximo que eu achei.
Tinham pessoas de todos os naipes: velhos como eu, velhos mais velhos que eu, filhos dos velhos que foram ao show obrigados, putaças, pessoas normais, roqueiros, comunidade gay, aleatórios, mauricinhos, entusiastas musicais e muitos fanzocas. No intervalo entre o show principal e a abertura vi uma coroa estudando as letras das músicas com o encarte do disco na mão. Rob Gordon baixou em mim e me deu uma revolta interna muito grande. Conheço algumas pessoas que DEVERIAM estar no lugar dela e não estavam, seja por falta de grana, ingresso ou tempo mesmo.
Dados os primeiros acordes de Everybody Wants To Rule The World as lágrimas já escorriam quase que instantaneamente. Um filme começou a passar pela minha cabeça e num mix de felicidade e tristeza por tempos que nunca mais voltarão, eis que uma aleatória me empurra querendo passar, cortando minha onda sóbria pessoal. Não tinha espaço para ela ali e eu com toda minha delicadeza, mandei ela meter o pé e ir cortar a onda dos outros na puta-que-o-pariu. Acho que ainda ouvi um “Sua grossa”, mas mas eu só conseguia falar “rala daqui” . Rob Gordon falando mais alto dentro minha personalidade. Eu sei que pode soar radical, mas eu não me importo. Me importo sim com meu momento que foi pra casa do caralho.
Orzabal era meu amor platônico na pré adolescência e analisando bem seus atributos físicos, o tempo foi cruel com ele. Fisicamente falando, ele estava em boa forma para seus 50 anos, mas a cara não nega, apesar do cabelo longo e cacheado. Em compensação, sua voz, estava IMPECÁVEL e sem pro-tools (eu fiz questão de olhar esse detalhe na mesa), gogó lustroso e afinado tanto no soprano como no barítono. Curt Smith está bem fisicamente, mas seus falsetes não são mais os mesmos.

Foto: G1
O show continou com Secret World música essa que já é do Everybody Loves a Happy Ending de 2004, disco que marcou a volta dos dois a banda. Nunca dei muita atenção a esse álbum, mas tem umas canções muito inspiradas. A iluminação do palco nessa música foi fundamental pra atmosfera agradável do momento.
Foto: Terra
Na sequência, vem duas porradas: Sowing The Seeds Of Love e Change. Houve problemas de som na primeira o que foi uma merda, mas por outro lado, ver as pessoas lá na frente com girassóis nas mãos foi de arrepiar. Assistir também o Orzabal alisar o peito de Curt logo após cantar o verso “my girlfriend and me… in love” foi impagável. Change foi tocada na versão original – do The Hurting, disco de estréia da dupla. Como eu disse, Curt tá mais fraquinho e as linhas de baixo dessa música me parecem ser difícieis. Eu entendo.
Pra descansar dos hits, seguiram Call Me Mellow e Everybody loves a Happy Ending não menos boas. Falaram umas baboseiras em português, “You’re lovely people”, “It’s hot in Rio” e blá, blá, blá. Logo depois vieram com Mad World que achei fraca pra minha exigência. Tocaram com o tom mais baixo, não sei precisar se foi meio ou um, mas pra mim, tava lento demais. Não consegui nem fazer a dancinha do clipe, que eu planejei por anos fazer. Isso aconteceu com todas as músicas do Curt.
O show prosseguiu com Memories Fade e na mesma onda, Closest Thing to Heaven. A execução da segunda foi um momento único pra mim. Nunca tinha prestado a atenção devida e merecida a essa música.
Closest thing to heaven
How do you do it?
Closest thing to heaven, heaven
Pensei que aquilo tudo naquele momento poderia ser o closest thing to heaven pra mim. Pensei na influência divina e, se me sentir do jeito que eu estava me sentindo era estar próximo de Deus, eu estava lá com os anjos tocando harpa.
O set continuou lindo com Falling Down, Advice For The Young At Heart – que deixou um gostinho de quero mais, já que eles NÃO cantaram o finalzinho – Floating Down the River, Badman’s Song, Pale Shelter que foi bem pálida mesmo, muito lenta pra minha nano-decepção.
Não lembro em qual momento, mas Orzabal tocou uma versão de Billie Jean com a cara do Tears For Fears. Só reconheci no refrão.
E pra meter o pé na porta, uma sequencia de 4 hits com intervalo no meio delas para o bis: Break it Down Again, Head Over Heels, Woman in Chains – com Michael Wainwright fazendo a voz de Oleta Adams tão bem que eu juro pensar ser playback no início- e pra fechar com chave de outro, Shout.
Foi uma noite inesquecível pra mim. Espero poder vê-los mais uma vez antes de morrer.
Eu que deveria estar no lugar da vèia com o encarte na mão!!!

Muito bom seu resumo sobre o show..
Gostei do seu resumo. Não soi supresa a diferença que estava “pale shelter” do show, com o original…a voz deles não são mais as mesmas, mas confesso que pensei que o show poderia ser muito pior e não foi me agradou em muito…ainda mais pq eu sei que eles nunca mais irão tocar no Brasil (provavelmente) confesso que deve ter sido um dos melhores shows da minha vida. Acho que foi a expectativa rsrs.
Um abraço
Rodrigo Ferreira